Em 11 de outubro, com as bets já fora do ar, a Folha revelou que o Ministério da Fazenda investiga 14 casas de apostas por subdeclaração de receita. O caso mais chamativo é o da Blaze, aquela mesma que Neymar Jr. e Virgínia Fonseca divulgaram por anos.

A conta é esta: a empresa declarou faturamento de R$ 1,9 bilhão. Desse total, deduziu mais de R$ 477 milhões em "bônus sacáveis". Depois do desconto, a receita declarada caiu para R$ 1,42 bilhão.

O que é um "bônus sacável"

A regra parece razoável no papel. Se a casa te dá R$ 50 de bônus e você pode sacar esse dinheiro quando quiser, é dinheiro seu — então não deveria contar como receita da empresa.

A Fazenda publicou uma nota técnica em janeiro de 2025 confirmando essa lógica, com uma condição: o jogador tem que poder sacar quando quiser.

Só que as próprias páginas da Blaze, num texto de maio do ano passado que ficou no ar até o site sair do ar em 6 de outubro, explicavam outra coisa: cada promoção ativada precisava que o dinheiro concedido fosse usado em um número mínimo de apostas, geralmente cerca de 35 vezes o valor do benefício. Quando essa meta fosse atingida, ele poderia ser sacado.

Trinta e cinco vezes. Para sacar R$ 50 de bônus, você precisa apostar R$ 1.750.

O que a lei diz sobre isso

A nota técnica da Fazenda diferencia duas coisas. Recompensa financeira sacável é dedutível. Recompensa não financeira — o valor promocional que só serve dentro da plataforma, tipo um cupom — deve ser tratado como custo de marketing, não como dedução de receita.

Quatro executivos do setor ouvidos pela Folha sob anonimato foram diretos: aqueles valores não poderiam ser considerados bônus sacáveis. E a Blaze não declarou gastos com programas de recompensa na seção de custos operacionais — o que, se fossem marketing, deveria aparecer.

O impacto estimado: até R$ 96,1 milhões em tributos federais e R$ 57 milhões em destinação social, que é a fatia de 12% da receita bruta obrigatória por lei.

A resposta da empresa

A Foggo Entertainment, detentora da marca Blaze no Brasil, afirmou que apura a receita bruta em conformidade com a regulamentação vigente e com as orientações das autoridades competentes, e que está à disposição para esclarecimentos. Disse também que não comenta números específicos de demonstrações financeiras fora dos canais e prazos societários próprios.

Por que isso importa agora

Parece um detalhe contábil de um setor que já acabou. Não é.

Primeiro, porque o dinheiro em discussão é dinheiro público — tributo e destinação social que deixaram de entrar. Segundo, porque mostra como funcionava a engenharia: o mesmo mecanismo que prendia o jogador no ciclo de apostas (o rollover de 35 vezes) servia para reduzir a base de cálculo do imposto.

A mecânica é elegante de um jeito sujo. O bônus só existe para fazer o jogador apostar mais. E, ao mesmo tempo, reduz o faturamento sobre o qual a empresa paga imposto. Quem ganha duas vezes é a casa. Quem perde duas vezes é o apostador e o contribuinte.

E as outras treze

Entre as empresas na lista está a RR Participações, controladora da MultiBet e da Ricobet, do empresário mineiro Ricardo Rezende Soares de Oliveira, que atua no ramo lotérico e na venda de títulos de capitalização.

A investigação segue mesmo com o setor fechado. O fato de o site ter saído do ar não apaga a obrigação tributária do período em que operou — é a mesma lógica do que a empresa continua devendo depois de fechar.

A Blaze foi condenada?

Não. Há investigação administrativa em curso e a empresa nega irregularidade.

Isso afeta quem apostava?

Não diretamente. O impacto é na arrecadação pública.

O que é rollover?

A exigência de apostar várias vezes o valor do bônus antes de poder sacar. No caso citado, cerca de 35 vezes.

Quantas empresas estão na investigação?

Quatorze, segundo a Folha.