Na quarta-feira, 7 de outubro, o Brasileirão voltou depois da pausa da Data Fifa. Quem ligou a TV viu um campeonato diferente.

No Beira-Rio, o Corinthians entrou com a marca da Jota.ai, um agente de inteligência artificial para finanças. Foi um patrocínio pontual: R$ 1 milhão por aquela partida. Antes, ali ficava a Esportes da Sorte.

No Nilton Santos, Botafogo e Vasco jogaram com o espaço principal da camisa vazio. Os dois substituíram a publicidade por divulgação do próprio programa de sócio-torcedor.

O campeonato das gambiarras criativas

Dos 20 clubes da Série A, 14 estampavam bets no espaço mais nobre do uniforme antes da MP. O prazo para retirar era 5 de outubro. A partir dali, cada clube improvisou do jeito que deu.

O Internacional, que não tinha bet, aproveitou para vender a camisa à Shopee na campanha 10.10. O Remo trocou a VaideBet pelo Banpará, banco paraense que já dá nome ao estádio. O São Paulo e o Fluminense, patrocinados pela Superbet, passaram a estampar a Superscore — plataforma de estatísticas do mesmo grupo, com a ressalva de que não exibe odds, publicidade ou sugestão de apostas. O Grêmio retirou a Pitaco e deixou o espaço vazio. O Cruzeiro tirou a Betnacional e jogou com a camisa limpa.

Havia uma ironia fina nisso: o Mineirão, que já tinha restringido publicidade de bets por decisão do governo de Minas, viu o gramado e os bancos de reserva serem cobertos na véspera do jogo. O tecido azul com a marca da Betnacional virou um pano escrito "Toca da Raposa".

O protesto nas placas

Em nove jogos da 29ª rodada, as placas de publicidade exibiram frases de um manifesto da ANJL e do IBJR, as entidades do setor.

A última é a pergunta que o governo não respondeu publicamente até agora.

O que isso custa ao torcedor

Nada, em teoria. Mas custa ao clube, e o clube é o torcedor.

Um patrocínio pontual de R$ 1 milhão por jogo parece bom até você comparar com o que estava lá antes. O Botafogo tinha R$ 55 milhões por ano da Vbet. O Corinthians tinha um contrato máster de longo prazo. O Flamengo, R$ 895 milhões em 40 meses com a Betano.

Substituir isso com ações de 10.10 e programa de sócio não fecha a conta. E o que não fecha na conta do clube aparece depois: atraso de salário, venda de jogador mais cedo, categoria de base com estrutura pior.

O detalhe que o torcedor não vê

A camisa vazia é a parte visível. A parte invisível é o contrato suspenso, a negociação travada, o departamento de marketing reescrevendo proposta comercial para um patrocinador que não sabe se pode aparecer no ano que vem.

E há uma questão de calendário que ninguém resolveu: a MP vale até 23 de novembro e pode ser prorrogada por mais 60 dias. O Campeonato Brasileiro termina em dezembro. Ou seja, o campeonato inteiro vai ser jogado sem saber qual é a regra.

O que os clubes pedem ao Supremo está em a camisa incompleta e o pedido de R$ 430 milhões.

Todos os clubes tiraram a bet da camisa?

Sim. O prazo era 5 de outubro e a retirada foi cumprida na rodada seguinte.

Alguém foi punido por descumprir?

Não há registro de punição a clube até agora.

O espaço vai ficar vazio até quando?

Depende do Congresso e do STF. A MP tem prazo até 23 de novembro, prorrogável.

Quanto um clube chega a perder por jogo?

Um patrocínio pontual rendeu R$ 1 milhão. O contrato anual que ele substituiu podia passar de R$ 55 milhões.