"Proibir não é..." — a frase ficou incompleta no uniforme, na partida contra o Santos. Era um protesto. Também era um recado: o Flamengo já havia protocolado no Supremo Tribunal Federal um pedido para entrar na ação que questiona a medida provisória que acabou com as bets.
O Flamengo foi o primeiro. Depois dele, mais 22 clubes.
A conta do Flamengo
O clube estimou perda imediata de receita entre R$ 400 milhões e R$ 430 milhões no exercício de 2027. O contrato com a Betano prevê R$ 895 milhões em 40 meses. Projetando o efeito em todo o futebol brasileiro, o número que o clube levou ao STF é R$ 2,5 bilhões.
O argumento jurídico não é "queremos dinheiro". É que a medida atingiria o fomento ao esporte, modalidades olímpicas, futebol feminino e categorias de base — tudo o que, na estrutura do futebol brasileiro, é financiado pelo cross-financing das receitas comerciais do masculino profissional.
O clube também reclamou do prazo de dez dias para retirar as marcas. Uniformes são produzidos com meses de antecedência. Placas de estádio, painéis de LED, transmissões internacionais — tudo isso não se apaga em uma semana sem dano.
A conta dos outros
O São Paulo apresentou contrato máster com a Superbet válido até 2030, que inclui até o nome do centro de treinamento. São R$ 95 milhões fixos em 2026 e R$ 678 milhões ao longo da vigência. Havia cerca de 15 mil camisas com a marca da patrocinadora em estoque no momento da proibição.
O Vitória recebeu notificação de suspensão do contrato com a 7K. Estimativa: R$ 2,5 milhões por mês, R$ 55 milhões até o fim do acordo.
O Botafogo disse ao STF que a quebra dos patrocínios coloca em risco o próprio plano de recuperação judicial. Guarani e Portuguesa fizeram a mesma observação sobre suas recuperações. A Ponte Preta citou compromissos assumidos num plano de pagamento de dívidas trabalhistas.
Um grupo de cinco clubes — São Paulo, Ponte Preta, Vitória, Guarani e Portuguesa — pediu algo mais modesto: se a proibição ficar, que os contratos assinados antes da MP possam ser executados até 31 de dezembro de 2026. Sem novos contratos, sem renovação, apenas o tempo para trocar uniforme e fechar as contas do ano.
Quem mais foi ao Supremo
Não foram só os clubes. A ANJL e o IBJR, que representam o setor, entraram em 28 de setembro. A Abert, que representa emissoras de rádio e TV, entrou em 30 de setembro falando em perda de receita de contratos em vigor. Cruzeiro, Fluminense e mais 14 clubes pediram para entrar em 2 de outubro.
O relator é o ministro Luiz Fux. Ele já relata três ADIs sobre o tema. Em 2 de outubro, deu 72 horas para o governo se manifestar. A AGU respondeu em 6 de outubro defendendo a manutenção integral da proibição — e chamou as bets de "dragão" que precisava ser domado.
Até 20 de outubro, passado o segundo turno, não havia decisão.
O que está em jogo de verdade
Há duas leituras para o mesmo pedido.
A primeira: clubes que se acostumaram com um dinheiro que não era deles e agora não sabem fechar a conta. Nessa leitura, o patrocínio de bet inflou salários, mercado de transferências e estruturas que o futebol brasileiro não sustenta sozinho.
A segunda: um setor que vinha sendo a principal fonte de receita comercial do futebol nacional, do profissional à base, e que foi cortado sem transição. Nessa leitura, o prejuízo não é do clube, é do atleta de 15 anos que treina com estrutura paga por esse dinheiro.
A proibição atinge patrocínio já assinado?
Sim. A MP vedou publicidade e patrocínio, com prazo de dez dias para retirada.
Algum clube já ganhou?
Não. Até 20 de outubro não havia decisão de Fux.
O que os clubes pedem?
Suspensão da MP ou, no mínimo, prazo de transição até 31 de dezembro de 2026.
Quanto o futebol perde por ano com isso?
Mais de R$ 1 bilhão em patrocínios em 2025, cerca de 34% da receita comercial dos clubes da Série A, segundo os próprios clubes.