Thaís Policarpo Vellardi tem 33 anos e uma trajetória que, até setembro, qualquer recrutador chamaria de excelente. Saiu de uma empresa fora do setor, onde se sentia estagnada como analista de marketing, e virou coordenadora numa casa de apostas. "Os salários eram realmente muito competitivos. Havia muitas propostas e poucos especialistas que entendiam do segmento. Dava para escolher onde trabalhar", ela conta.
Neste mês, ela mandou currículo para mais de cinquenta vagas em duas semanas. Conseguiu uma entrevista. Era para o mesmo tipo de cargo, com redução salarial significativa.
"Sinto que o mercado tradicional tem muito preconceito com quem trabalhou em bet. A gente fica marcado", diz ela. O trabalho que fazia continua o mesmo: coordenava equipe, montava campanha, gerenciava orçamento. O que mudou foi a leitura que o recrutador faz da palavra no topo do currículo.
Em dois anos, "trabalhei em bet" passou de diferencial cobiçado a coisa que se explica na entrevista. É esse o efeito que nenhum estudo do setor mediu, porque não cabe em planilha.
O outro lado da mesma moeda
Renan Fellipe tem 34 anos e uma história que começa mais longe. Por dez anos, foi frentista de posto em Recife. Sem plano de carreira, sem perspectiva de crescer.
A vida mudou quando entrou no setor de apostas: começou no atendimento ao cliente, foi subindo, e no auge chegou a ganhar R$ 4 mil por mês. Para quem vinha de uma bomba de gasolina, era outro mundo.
Quando o governo assinou a MP, em 25 de setembro, ele estava havia oito meses em outra empresa de apostas, recebendo R$ 2.100. "Antes do corte, a empresa parecia um funeral. Todos apreensivos", contou ao UOL.
A companhia demitiu cerca de cinquenta pessoas. Quase todo o quadro. Sem trabalho, ele e a mulher adiaram o plano de ter um filho neste ano. "Não tenho medo de trabalhar, tenho medo de ficar parado."
Os números, e por que eles devem ser lidos com cuidado
Um levantamento da ANJL, associação do setor, aponta mais de 3.500 demissões desde a publicação da MP. Isso equivale a 23% de uma força de trabalho estimada em 15 mil pessoas, contando prestadores e fornecedores. Outros 4.167 trabalhadores estão em férias coletivas — contratados, mas em casa, esperando. A projeção da entidade é de 5.600 cortes em noventa dias.
Números de associação de classe têm sempre um lado interessado: servem para pressionar o governo, e devem ser lidos sabendo disso. Mas há um detalhe que dá peso a esses: eles não vêm de estimativa, vêm de contagem. A Amig, associação de mulheres da indústria de gaming, identificou nominalmente cerca de 730 demissões.
O call center que fechou inteiro
A Betano não demitiu seu pessoal direto, por enquanto. A aposta da empresa é que repor gente qualificada numa eventual retomada seria caro e demorado, então vale segurar o time. Mas os cortes não precisam acontecer dentro da empresa para acontecer por causa dela: caíram nos fornecedores. Um call center que atendia a Betano em Curitiba demitiu 500 pessoas de uma vez.
É aqui que a história fica maior do que parece. Quem fala de "fim das bets" pensa nas plataformas, nos sites, nos aplicativos. Mas o setor era uma cadeia: tecnologia, publicidade, eventos, serviços corporativos, atendimento. O levantamento da LCA Consultores, encomendado pela ANJL e pelo IBJR, aponta que a proibição atinge uma cadeia ligada a pelo menos 42 atividades econômicas. Eram cerca de 10 mil empregos diretos e 5,5 mil indiretos.
Na Alob Sports, agência responsável pelas ativações do Flamengo, foram 34 demissões. O sócio-fundador, Bernardo Pontes, não confirma o número, mas diz que, com o fim do patrocínio, os cortes foram inevitáveis. Na H2Bet, ex-patrocinadora do Atlético Mineiro, o CEO Ueltom Lima Gomes confirmou 150 desligamentos. Na Rivalo, ex-funcionários falam em 100 cortes; o diretor Daniel Eskinazi confirmou as rescisões e disse que a empresa mantém parte do time para o caso de o mercado voltar a ser regulado.
Repare na frase dele: "caso volte". Todo mundo no setor está apostando nesse caso, e ninguém sabe a cotação.
Por que o setor pagava tão bem
Segundo a LCA, o salário médio em 2025 era de R$ 7 mil, e 63,8% dos trabalhadores ganhavam mais de quatro salários mínimos. Era um mercado que pagava acima da média para gente qualificada, num país onde isso não é comum. Muita gente trocou estabilidade por esse dinheiro, de olhos abertos, porque o cálculo fazia sentido na época.
E o futebol, que agora também faz conta
Em 2025, as casas de apostas destinaram mais de R$ 1 bilhão em patrocínios aos clubes da Série A. Segundo os próprios clubes, isso equivalia a 34% das receitas comerciais dessas equipes. Quatorze dos vinte times da Série A tinham patrocínio de bet.
Pelo menos 23 clubes entraram no Supremo pedindo para participar das ações que questionam a MP. O Flamengo alega perda imediata de até R$ 430 milhões no ano que vem. O Botafogo diz que a quebra dos patrocínios coloca em risco seu plano de recuperação judicial. Um grupo de cinco clubes alerta para atraso salarial e rescisão de contratos de jogadores.
O economista Cesar Grafietti, que estuda as finanças do futebol, descreveu à Reuters a reação em cadeia que já começou: o clube é obrigado a vender jogador, e os valores caem; jogadores com contrato a renovar aceitam salário menor; contratações deixam de acontecer nos valores que se viam até agora. "É um golpe fatal", ele disse. O caso dos clubes está em a camisa vazia e o pedido ao STF.
O que isso significa na prática
Para quem trabalha no setor, o momento é de esperar. A decisão de Fux no STF e a votação no Congresso definem se existe retomada e quando — e ninguém sério vai cravar uma data.
Para quem estava pensando em entrar, a janela fechou. Os salários acima do mercado que atraíram tanta gente em 2024 e 2025 vinham de um mercado que agora não pode operar.
O que fica de mais concreto é uma coisa que não estava em nenhuma planilha do governo: um monte de gente qualificada, com experiência real, tentando explicar numa entrevista que o trabalho que fazia era igual ao trabalho que qualquer empresa faz — só que num setor que virou palavra proibida da noite para o dia.
Quantas pessoas foram demitidas por causa do fim das bets?
Mais de 3.500 até meados de outubro, segundo a ANJL, com outras 4.167 em férias coletivas e projeção de 5.600 em noventa dias. São números de entidade do setor, não do governo.
Se eu fui demitido de uma bet, tenho algum direito específico?
Não há regra nova. Valem as regras normais de rescisão, com aviso, férias e FGTS. O problema relatado pelos demitidos é a recolocação, não a rescisão.
As bets podem recontratar se a proibição cair?
Podem, e algumas já sinalizaram que querem. Betano e Superbet mantiveram parte do time justamente para reduzir o custo de reposição.
O futebol brasileiro quebra sem as bets?
Não quebra, mas perde receita relevante: R$ 1 bilhão em 2025, cerca de 34% da receita comercial dos clubes da Série A, segundo os próprios clubes.
E o call center, a agência, o fornecedor — eles têm a ver com a MP?
Têm. A cadeia atingia 42 atividades econômicas, segundo a LCA. Quem prestava serviço para bet perdeu cliente.