Quando o governo fechou o setor, o país discutiu por duas semanas o que aconteceria com o apostador. Quase ninguém perguntou quem ficava com o dinheiro.

A resposta está numa lista pública do Ministério da Fazenda: 188 sites autorizados, cerca de 82 empresas por trás deles, e uma mistura curiosa de megagrupos europeus, companhias de capital aberto e empresários brasileiros com histórias nada tranquilas.

A líder: uma grega que faturava US$ 1,4 bilhão

A Betano liderou o mercado brasileiro em 2025, com GGR estimado em US$ 1,429 bilhão. Pertence à Kaizen Gaming, grupo grego fundado por George Daskalakis, presente em 20 países da Europa, Américas e África. Também é dona da Stoiximan, uma das maiores marcas da Grécia e do Chipre.

Foi dela o contrato de R$ 895 milhões em 40 meses com o Flamengo. Era o maior patrocínio do futebol brasileiro. O clube agora pede R$ 430 milhões de perda ao STF.

A britânica que começou na empresa da família

A Bet365, segunda colocada, foi fundada em 2000 por Denise Coates. Ela começou trabalhando na Provincial Racing, a empresa de apostas da família, em Stoke-on-Trent. Transformou aquilo numa das maiores plataformas do mundo e construiu boa parte da própria fortuna com a companhia — uma das maiores remunerações anuais do Reino Unido, ano após ano.

A terceira não tem dono

A Sportingbet pertence ao grupo Entain, companhia aberta com ações na Bolsa de Londres. Não existe "o dono". Existem acionistas: The Capital Group com 9,97%, JPMorgan Chase com 6,67%, Barclays com 6,13%, BlackRock com 5,01%.

É a prova de que o setor não era só um bando de aventureiros com site. Era uma indústria com dinheiro de fundo de pensão dentro.

O brasileiro com o nome mais pesado

A Esportes da Sorte é operada pela Esportes Gaming Brasil, controlada por Darwin Henrique da Silva Filho, que também é CEO. Criada em 2018, virou uma das maiores de origem nacional. O grupo ainda administra a Onabet e a Lottu.

O sobrenome não é acidente: Darwin Filho é filho de Darwin Henrique da Silva, apontado como ligado ao jogo do bicho em Pernambuco. Em setembro de 2024, o empresário foi alvo da Operação Integration, que investigou lavagem de dinheiro envolvendo apostas e jogos ilegais. A operação ficou conhecida nacionalmente por ter levado à prisão a influenciadora Deolane Bezerra e por ter atingido o cantor Gusttavo Lima.

A empresa sempre negou irregularidades e afirma cumprir a legislação do setor.

O romeno e o pôquer

A Superbet é de origem romena, fundada em 2008 por Sacha Dragic. A família Dragic segue entre os principais acionistas, e o grupo recebeu investimento de peso do Blackstone. No Brasil, assinou com São Paulo e Fluminense — e, quando a MP saiu, os dois clubes passaram a estampar a Superscore, plataforma do mesmo grupo.

A Betnacional é da NSX Brasil, fundada em 2021 pelo ex-jogador de pôquer João Studart. A VaideBet ficou marcada por uma investigação sobre repasses a um intermediário ligado ao patrocínio do Corinthians.

O que essa lista revela

O mercado brasileiro não era periférico para essas empresas. Era a principal aposta de crescimento de grupos europeus com operação em vinte países. Fechar o Brasil não é fechar uma loja — é perder o mercado que sustentava a expansão.

E o dinheiro que saiu do país nos últimos anos não foi só de bicheiro e influencer. Foi também de fundo de investimento, de acionista de banco, de capital aberto em Londres. Esse é o tipo de dinheiro que não desaparece quando a lei muda; ele espera, ou muda de endereço.

E agora?

As autorizações foram extintas em 25 de outubro. As empresas mantêm representante legal no Brasil para cumprir obrigações remanescentes. Algumas demitiram. Outras colocaram todo mundo em férias coletivas e esperam.

Nenhuma delas vai embora de verdade. Setor que movimenta R$ 220 bilhões por ano no Brasil não se desmonta em um mês — apenas sai da vitrine. O que aconteceu com as cinco maiores marcas em tráfego está em o retrato de setembro.

Quantas empresas operavam legalmente?

188 sites autorizados, ligados a cerca de 82 empresas.

Alguma delas era brasileira?

Sim. Esportes da Sorte, Betnacional e VaideBet são as mais conhecidas.

Elas podem voltar?

Depende do Congresso e do STF. As autorizações foram extintas, mas as marcas continuam existindo.

Isso significa que o setor não era só de aventureiros?

Não era. Havia capital aberto em Londres, gestora de private equity e fundo de investimento entre os acionistas.