Eram quatro pessoas, uma cidade pequena no interior da Bahia e uma conta que ninguém conseguia explicar.

Na quinta-feira, 8 de outubro, a Polícia Civil da Bahia prendeu quatro influenciadores digitais em Casa Nova, no Vale do São Francisco. Os nomes divulgados: Josivan Silva Ribeiro, Erika Taisa da Silva Sampaio, Vitor de Amorim Silva e Maria Luiza Barbosa Ribeiro.

O total de bens alcançados por bloqueio judicial: R$ 84.879.547.

O que a investigação encontrou

A Delegacia Territorial de Casa Nova começou a olhar para o grupo por um motivo simples: movimentações incompatíveis com a renda declarada. Nenhum dos investigados tinha atividade lícita declarada.

O que existia, em vez disso, era o que aparecia nas redes: viagens, carros de luxo, imóveis de alto padrão.

Nas buscas, a polícia apreendeu um carro, duas caminhonetes, dois quadriciclos, vários reboques, uma estrutura automotiva de som de alta potência e quatro geradores de energia. Uma das caminhonetes, uma Toyota SW4, é avaliada em R$ 350 mil. Os veículos somam cerca de R$ 700 mil.

Também foram recolhidos uma pistola calibre 40 com 26 munições, três carregadores, 30 munições de calibre 36 e seis celulares.

Como o esquema funcionava

Segundo a polícia, eles usavam o alcance das próprias redes sociais para levar pessoas a plataformas de apostas fora do domínio legal .bet.br.

Essas plataformas não tinham controle de idade. Não tinham prevenção à lavagem de dinheiro. Não tinham nada do que a regulamentação exigia de quem operava com autorização.

O modelo é conhecido e se repete em todo o país: o influenciador não é dono do site. Ele é a porta de entrada. Ganha por indicação, por volume de depósito, por cadastro. E o seguidor que confia nele deposita num lugar onde não existe ouvidoria, regulador nem obrigação de pagar prêmio.

A investigação mirou três crimes: apostas online ilegais, organização criminosa e lavagem de dinheiro. As operações foram batizadas de Felis e Influência Oculta.

O detalhe que explica por que esse caso é diferente

O Brasil tem milhares de perfis divulgando bet clandestina. O que fez esse caso virar processo não foi a divulgação em si — foi a matemática.

Quando a renda declarada é zero e o patrimônio é de oito dígitos, a investigação deixa de ser sobre publicidade irregular e passa a ser sobre de onde veio o dinheiro. E aí entra a lavagem.

Foi exatamente o mesmo raciocínio que a Polícia Federal usou na Operação Arena, contra a PixBet, e na Operação Slots, contra sites ligados ao tráfico. O padrão se repete: o site é a ponta; o crime organizado está no meio do caminho, entre o depósito e o saque.

O que acontece agora

A Justiça autorizou o bloqueio das contas dos investigados. Cinco mandados de busca e apreensão foram cumpridos na casa onde os quatro foram presos.

O processo segue em segredo. O que se sabe é o que a polícia divulgou: os valores apreendidos chegam a R$ 84,8 milhões, e a investigação continua para identificar outros participantes do esquema.

O que isso muda para quem aposta

Muda uma coisa muito concreta. Se você deposita num site indicado por influenciador, e esse site não termina em .bet.br, você está colocando dinheiro num lugar que a polícia já trata como possível instrumento de lavagem.

Não é exagero, e não é teoria. É o objeto de duas operações deflagradas em outubro.

O limite entre "influenciador que divulga bet" e "integrante de organização criminosa" é justamente esse: existe dinheiro de origem não declarada no meio? Se existe, a história deixa de ser sobre publicidade e passa a ser sobre cadeia.

Quem foram os presos?

Josivan Silva Ribeiro, Erika Taisa da Silva Sampaio, Vitor de Amorim Silva e Maria Luiza Barbosa Ribeiro, presos em Casa Nova (BA) em 8 de outubro de 2026.

Quanto foi bloqueado?

R$ 84.879.547 em bens, entre veículos, imóveis, contas bancárias e outros ativos.

Eles foram condenados?

Não. Foram presos e respondem a investigação. O processo corre sob sigilo.

Qual era o crime?

A polícia apura exploração ilegal de jogos online, organização criminosa e lavagem de dinheiro.

Por que prenderam eles e não outros influenciadores?

Pelo patrimônio incompatível com a renda declarada. Nenhum tinha atividade lícita declarada, mas exibiam carros de luxo, viagens e imóveis de alto padrão.