A operação começou cedo, numa quinta-feira de setembro, e tinha um endereço em mente: uma casa em Campina Grande, na Paraíba. Quando os agentes chegaram, o homem que procuravam não estava lá.

Ele foi encontrado horas depois, em outra casa — uma casa de praia em Jacumã, no litoral sul do estado. Diomar Tadeu Dantas de Farias, 30% da PixBet, foi preso preventivamente em 17 de setembro, na segunda fase da Operação Arena.

Trinta e três dias depois, em 20 de outubro, a Sétima Turma do Tribunal Regional Federal da 5ª Região mandou soltá-lo. Fiança: R$ 5 milhões.

O que a investigação diz que acontecia

Segundo a Polícia Federal, o dinheiro das apostas saía do Brasil e ia para uma empresa de fachada registrada em Curaçao. De lá, voltava como pagamento por serviços que nunca foram prestados, com nota fiscal emitida por quem não prestou serviço nenhum.

O efeito prático é sempre o mesmo: o dinheiro volta limpo, com aparência de receita legítima, e o lucro chega às mãos de quem realmente manda — sem passar pelo nome de ninguém.

A Receita Federal identificou movimentações suspeitas superiores a R$ 2 bilhões entre 2022 e 2025. E um detalhe que a PF destacou: o grupo já operava no mercado de apostas antes de receber a licença oficial.

O que foi levado

A lista de bens sequestrados na segunda fase é o que mais chama atenção, porque não parece coisa de site de aposta. Parece inventário de fazenda.

Carros, apartamentos, fazendas, bois, cavalos, obras de arte, relógios, joias e dinheiro em contas bancárias. A PF informou que o sequestro ainda estava em andamento e que o valor total não podia ser calculado.

Na primeira fase, em agosto, a Justiça já havia autorizado o sequestro de até R$ 1,1 bilhão. Foram 19 mandados de busca e apreensão em cinco estados: Paraíba, São Paulo, Sergipe, Rio de Janeiro e Paraná.

A PixBet tem sede em Campina Grande e já estampou sua marca em camisas de Flamengo e Corinthians. Não é uma bet de fundo de quintal — era uma das marcas brasileiras mais visíveis do setor.

Por que ele saiu

A decisão do TRF-5 é interessante porque não diz que a investigação está errada. Diz que a prisão não é o instrumento adequado para o caso.

O colegiado considerou que prender não impede a movimentação de criptoativos — e que o bloqueio patrimonial já havia alcançado R$ 6,57 milhões em nome do empresário e R$ 3,32 milhões em nome da empresa.

Também pesou o que não havia: nenhum indício de tentativa de fuga, de descumprimento de ordem judicial, de ameaça a testemunha ou de interferência na investigação.

As condições da soltura são estas: não sair do país sem autorização, passaporte retido, comparecer à Justiça a cada 15 dias, comunicar mudança de endereço e não manter contato com os outros investigados. O tribunal deixou aberta a possibilidade de nova prisão se algo for descumprido.

O primo, o outro 70%

Diomar Tadeu é primo de Ernildo Júnior Farias Santos, dono dos outros 70% da PixBet. Ernildo também foi alvo de mandado de busca e apreensão na segunda fase. Na primeira, em agosto, foi abordado por agentes da PF em Campina Grande, e o carro e o celular dele foram apreendidos.

Os dois têm ligação com o ramo das vaquejadas na Paraíba — o que explica, em parte, a presença de bois e cavalos na lista de bens sequestrados.

O que isso significa para o mercado

A investigação não é sobre apostar. É sobre para onde ia o dinheiro.

E é aí que a história fica maior do que um empresário e uma marca. O Brasil movimentou cerca de R$ 220 bilhões em apostas em 2025. Desse volume, uma parte passou por estruturas societárias desenhadas para não deixar rastro — empresas em paraísos fiscais, notas frias, criptoativos, laranjas.

Fechar as plataformas em 6 de outubro não apagou nada disso. As investigações continuam, e continuam olhando para trás: o que aconteceu entre 2022 e 2025 é matéria de processo, não de medida provisória.

O que a PixBet diz

A reportagem procurou a defesa de Diomar Tadeu para saber se a fiança foi paga e para obter posicionamento sobre a decisão. Não houve resposta até a publicação.

Quem foi preso na Operação Arena?

Diomar Tadeu Dantas de Farias, sócio de 30% da PixBet. Preso preventivamente em 17 de setembro de 2026, em Jacumã, e solto em 20 de outubro mediante fiança de R$ 5 milhões.

Do que ele é acusado?

A investigação apura lavagem de dinheiro, evasão de divisas e crimes contra a ordem tributária e financeira. A PF aponta o uso de empresa de fachada em Curaçao para fazer o dinheiro voltar ao Brasil como pagamento por serviços não prestados.

Ele foi condenado?

Não. A decisão do TRF-5 é sobre prisão preventiva, não sobre o mérito. O processo continua.

A PixBet foi fechada pela MP das bets?

Como todas as casas autorizadas, a plataforma saiu do ar em 6 de outubro de 2026. A investigação da PF é sobre fatos anteriores, entre 2022 e 2025.

O que a empresa diz?

A reportagem procurou a defesa de Diomar Tadeu e não recebeu resposta até a publicação.