A investigação começou em maio de 2025, com a Operação Totonero, deflagrada pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul. Um ano depois, em abril de 2026, a Justiça aceitou a denúncia contra um jogador de futebol por manipulação de resultados para apostas e lavagem de dinheiro.
O jogador é Ênio, atacante do Juventude que estava emprestado à Chapecoense. Ele virou réu na 1ª Vara Estadual de Processo e Julgamento dos Crimes de Organização Criminosa e Lavagem de Dinheiro.
Segundo a denúncia, ele atuou em um esquema de manipulação de apostas em jogos do Campeonato Brasileiro de 2025 e ocultou valores superiores a R$ 1,9 milhão obtidos de forma ilícita.
Os dois jogos
A acusação aponta dois cartões amarelos recebidos de forma deliberada, ambos quando ele atuava pelo Juventude.
O primeiro na estreia, contra o Vitória, no Alfredo Jaconi. O segundo na oitava rodada, diante do Fortaleza, no Ceará.
Em ambos os casos, casas de apostas registraram um aumento incomum de apostas na modalidade "cartão de jogador" antes dos jogos. O padrão indicava que os apostadores tinham conhecimento prévio do que ia acontecer. Alertas de manipulação foram emitidos nas duas ocasiões.
Por que o mercado de cartão
Porque é o mercado mais fácil de manipular sem chamar atenção.
Combinar um resultado é difícil: envolve o time inteiro, é visível, gera investigação imediata. Combinar um cartão é outra coisa. Um jogador pode forçar uma falta, atrasar uma reposição, reclamar com o árbitro. São ações que cabem em dois segundos e não levantam suspeita de ninguém em campo.
A aposta, do lado de fora, é numa coisa minúscula do jogo — e é justamente essa escala que faz o dinheiro grande passar despercebido por mais tempo.
O que a investigação encontrou
Segundo o promotor Manoel Figueiredo Antunes, coordenador do 5º Núcleo Regional do GAECO na Serra, foram reunidos elementos que indicam um esquema de manipulação de mercados secundários de apostas, especialmente os relacionados à aplicação de cartões em partidas da Série A.
A investigação identificou que, em jogos nos quais o atleta era advertido, ocorria aumento atípico e concentrado de apostas no mercado específico de cartão de jogador.
O outro lado: quem voltou a jogar
A Operação Penalidade Máxima, de 2023, em Goiás, banhou cinco jogadores do futebol. Três anos depois, quatro voltaram.
Ygor Catatau, Gabriel Tota e Romário foram reabilitados pelo Pleno do STJD em setembro de 2025, após cumprirem dois anos de afastamento, pagarem as multas e apresentarem declarações de idoneidade. Diego Porfírio foi reabilitado em janeiro de 2026.
O único que segue banido é o ex-goleiro Matheus Gomes, de 31 anos, condenado por intermediar outros atletas.
Tota chegou a jogar a Kings League pela Loud durante o afastamento. Tota, Romário e Porfírio voltaram pelo mesmo clube, o Pouso Alegre-MG. Catatau retomou no Volta Redonda e está emprestado ao CRB. Porfírio está na Ponte Preta.
O que isso diz sobre o sistema
Diz duas coisas, e as duas são desconfortáveis.
A primeira: a punição desportiva tem prazo. Quem foi banido "eternamente" voltou em dois anos, porque a reabilitação está prevista no Código Brasileiro de Justiça Desportiva.
A segunda: a punição criminal é outra história, e é bem mais rara. Ser réu não é ser condenado. A maioria dos esquemas investigados não termina com alguém preso — termina com alguém afastado por um tempo e depois readmitido.
E agora, com as bets fora do ar
Existe uma pergunta em aberto que ninguém respondeu ainda.
Se não há mercado regulado, o alerta de manipulação continua existindo? As casas que emitiam esses relatórios eram as autorizadas — as mesmas que saíram do ar em 6 de outubro.
O mercado clandestino não emite alerta. Não reporta movimento atípico. Não colabora com investigação. É um detalhe técnico com consequência prática enorme: o sistema que pegou Ênio dependia exatamente da parte do setor que foi desligada.
Quem é Ênio e do que é acusado?
Atacante do Juventude emprestado à Chapecoense. Virou réu por manipulação de apostas esportivas e lavagem de dinheiro, por ocultar mais de R$ 1,9 milhão.
O que ele teria feito?
Recebido dois cartões amarelos de forma deliberada em duas partidas do Brasileirão de 2025: contra o Vitória, na estreia, e contra o Fortaleza, na oitava rodada.
Como a fraude foi descoberta?
Pelo volume anormal de apostas no mercado "cartão de jogador" antes das partidas. Casas de apostas emitiram alertas de manipulação nos dois casos.
Ele foi condenado?
Não. A Justiça aceitou a denúncia em abril de 2026, o que o tornou réu. O processo continua.
Quantos jogadores banidos pela Penalidade Máxima voltaram?
Quatro dos cinco. Apenas o ex-goleiro Matheus Gomes segue banido.