Os números são de março, mas ninguém os leu como notícia, porque chegaram no meio de outra coisa. Vale a pena olhar de novo.

Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, da CNC, 80,4% das famílias brasileiras estavam endividadas. É o maior patamar da série histórica, que começou em janeiro de 2010.

Mais: 29,6% tinham dívidas em atraso. E 12,3% não tinham condição nenhuma de pagar o que estava atrasado. O pagamento de dívidas comprometia quase um terço da renda familiar.

Os 81,7 milhões

A Serasa tem outro retrato do mesmo problema. Em fevereiro, 81,7 milhões de brasileiros estavam inadimplentes — praticamente metade da população adulta do país, 49,9%.

O valor médio da dívida por pessoa: R$ 6.598,13.

Os principais tipos de dívida são cartão de crédito (84,9%), crediário no varejo (16%) e empréstimo pessoal (12,6%).

Três causas, e a terceira é nova

Especialistas ouvidos pela BBC Brasil apontam três fatores principais.

O primeiro é a ampliação do crédito, com mais gente tendo conta em banco desde a pandemia. O segundo são os juros altos. O terceiro é recente: a disseminação das plataformas de apostas online.

O terceiro não age como os outros dois. Crédito e juros são estruturais — você convive com eles. A aposta tem outra natureza: ela captura renda disponível de forma imediata, repetida e silenciosa. Não aparece na fatura do cartão como "aposta" se o depósito foi por Pix.

Uma mãe cearense, numa comunidade virtual de devotos de uma santa protetora dos aflitos e endividados, escreveu uma oração em abril. A reportagem da BBC usou esse detalhe para abrir o texto. É difícil imaginar imagem melhor do momento.

O que muda depois do fechamento

Nada, para quem já deve. A dívida feita em aposta não desaparece quando a plataforma sai do ar. Ela continua no banco, no cheque especial, no empréstimo consignado, no cartão.

E existe um detalhe jurídico que vale repetir: a lei prevê a nulidade da aposta feita por pessoa diagnosticada com ludopatia. Isso permite, em tese, pedir a devolução. Mas depende de diagnóstico, de prova e de processo — e a maioria das pessoas endividadas não tem nenhum dos três.

O que dá para fazer hoje

Para quem está endividado, a ordem prática é: primeiro organizar, depois negociar. Listar todas as dívidas com valor, juros e prazo. Priorizar as de juro mais alto — cartão e cheque especial. Procurar o banco para renegociar antes de o nome ir para o cadastro de inadimplentes.

Feirões de negociação, como os do Serasa Limpa Nome, costumam oferecer descontos relevantes. E o Procon do estado orienta gratuitamente.

Para quem ainda está apostando, o caminho é outro e começa antes: bloqueio voluntário da conta, autoexclusão pelo sistema do Gov.br e apoio em CAPS ou grupo de Jogadores Anônimos.

O dado que fecha a história

O Brasil tinha 80,4% das famílias endividadas e 220 bilhões de reais movimentados em apostas no mesmo período. As duas coisas não explicam uma à outra por completo — mas se cruzam em milhões de extratos bancários.

Fechar as bets em outubro resolveu o acesso. Não resolveu a conta.

Qual é o percentual de famílias endividadas?

80,4% em março de 2026, segundo a Peic/CNC — o maior nível da série histórica iniciada em 2010.

Quantos brasileiros estão inadimplentes?

81,7 milhões em fevereiro de 2026, segundo a Serasa — 49,9% da população adulta. Dívida média de R$ 6.598,13 por pessoa.

As bets são a causa?

São um dos três fatores apontados por especialistas, ao lado da ampliação do crédito e dos juros altos. Não são a única causa.

A dívida de aposta desaparece com o fim das bets?

Não. A dívida continua no banco, no cartão e no cheque especial, independentemente de a plataforma estar no ar.

Dá para pedir devolução na Justiça?

Sim, em casos de ludopatia diagnosticada, com base no art. 26 da Lei 14.790/2023. Exige diagnóstico, prova e processo.