A história começa em 2022, num jeito muito comum: um amigo apresentou os aplicativos. Ela estava sob pressão no trabalho e com problemas em casa. Começou com R$ 100, depois R$ 200, depois R$ 300.

Naquele momento, o jogo parecia uma saída. Uma possibilidade de ganhar dinheiro sem precisar continuar trabalhando tanto.

Não demorou para deixar de ser isso.

O aviãozinho

Ela passou a procurar plataformas que aceitassem valores cada vez maiores. Apostava muito no aviãozinho — o jogo em que você precisa decidir quando retirar antes que o avião desapareça da tela.

Uma vez, apostou R$ 2 mil e viu o saldo chegar a R$ 360 mil.

Outra vez, ganhou R$ 800 mil.

Não sacou.

"A possibilidade de ganhar mais parecia sempre maior do que a necessidade de parar. A sensação de jogar era, para mim, o maior prazer que existia. Sentia euforia, adrenalina. O problema é que a vitória não encerrava a aposta: abria caminho para outra."

Em algumas ocasiões, ela sacou para pagar dívidas. Em outras, deixou o saldo na plataforma porque queria continuar. E quando perdia, tentava recuperar apostando de novo. Sempre de novo.

As mentiras

Ela começou a esconder. Dizia que precisava de dinheiro para comprar um carro, para trocar os pneus. Inventava que o filho estava doente. Fingia que estava trabalhando.

Na verdade, passava horas no celular. Muitas vezes na escada do prédio onde morava, em São Bernardo do Campo, apostando escondida.

A posição profissional ajudou. Ela tinha responsabilidades e a confiança de outras pessoas. Acabou usando recursos que não eram dela e quebrou a confiança do irmão, dono da empresa onde trabalhava.

Os 41 dias

Em agosto de 2024, ela passou 41 dias internada numa clínica especializada em dependências.

No começo da recuperação, perdeu o emprego. A família precisou intervir para protegê-la dela mesma.

A irmã gêmea ficou com ela durante 21 dias. Acompanhava cada passo. Levava ao banheiro. Verificava as mensagens. Dormia perto dela segurando o celular.

A mãe passou a controlar os gastos. Durante um período, Joana ficou sem acesso às próprias contas. Certa vez, precisou pedir à mãe que fizesse um Pix para ela comprar um lanche na padaria. Não tinha carteira, não tinha dinheiro para as despesas do dia.

O que ela perdeu, em ordem

R$ 1,7 milhão em apostas. O emprego de dez anos. O casamento, que já estava em crise e não resistiu às mentiras. A confiança das pessoas próximas. A noção do valor do dinheiro.

E R$ 900 mil de dívida com bancos, entre empréstimos e cheque especial. Na realidade atual dela, uma dívida impagável.

O filho, hoje com dois anos e nove meses, passou a morar com a ex-mulher. Eles têm guarda compartilhada. Reconstruir essa relação, ela diz, é uma das partes mais importantes da recuperação.

O que ela aprendeu a reconhecer

Hoje ela identifica os sinais que podem levá-la de volta ao jogo. A luta, nas palavras dela, é diária.

Um dos sinais é o mais banal e o mais perigoso: a ideia de que dá para "só dar uma olhada". Outro é a euforia com dinheiro que aparece de repente. Outro é o isolamento — apostar escondido, no celular, longe de quem pode ver.

Por que essa história importa agora

O Brasil fechou as bets em 6 de outubro. Isso resolve o acesso às plataformas autorizadas. Não resolve o que já aconteceu com quem apostou.

Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, 80,4% das famílias brasileiras estavam endividadas em março — recorde da série histórica iniciada em 2010. E 29,6% tinham dívidas em atraso.

Uma parte disso não tem relação com apostas. Outra parte tem, e aparece nas histórias que chegam aos consultórios, aos grupos de apoio e às clínicas de dependência.

Fechar o site é a parte fácil. A parte difícil é o que fica na vida de quem jogou.

Onde buscar ajuda

O Sistema Único de Saúde atende dependência em jogo nos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial). Há também grupos de Jogadores Anônimos no Brasil e atendimento psicológico em universidades públicas.

Em crise, o CVV atende 24 horas pelo telefone 188, gratuitamente.

Quanto ela perdeu?

R$ 1,7 milhão ao longo do período em que apostou, e deve R$ 900 mil a bancos entre empréstimos e cheque especial.

Como ela começou?

Em 2022, por indicação de um amigo. Começou com apostas de R$ 100 a R$ 300, em um momento de pressão no trabalho e problemas em casa.

Ela chegou a ganhar?

Sim. Em uma ocasião viu o saldo chegar a R$ 360 mil a partir de uma aposta de R$ 2 mil. Em outra, ganhou R$ 800 mil — e não sacou.

Ela foi internada?

Sim, 41 dias em uma clínica especializada em dependências, em agosto de 2024.

Ela ainda aposta?

Não. Está há um ano e sete meses sem apostar, em recuperação.

Onde buscar ajuda?

CAPS pelo SUS, grupos de Jogadores Anônimos, atendimento psicológico em universidades públicas. Em crise, o CVV atende 24h pelo 188.