A investigação começou com reclamações no Procon-SP. Não com uma denúncia de lavagem, não com um relatório de inteligência financeira. Com gente comum reclamando que não conseguia sacar.
O resultado foi a Operação Disque 151, deflagrada em 13 de outubro pelo Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), por meio da 3ª Delegacia da Divisão de Investigações Gerais.
Três pessoas presas. Seis mandados de busca e apreensão. R$ 38,5 milhões em transações bancárias identificadas. Bloqueio patrimonial autorizado que pode chegar a R$ 154 milhões.
E um número que dá a dimensão do alcance: mais de 10 milhões de apostadores e vítimas relacionadas às duas plataformas.
Duas plataformas, duas iscas
A FortuneSlots se apresentava como cassino virtual. Oferecia jogos de apostas e promessas de ganhos financeiros. Os usuários eram incentivados a depositar por Pix e, em alguns casos, recebiam pequenos pagamentos para estimular novos investimentos.
Quando tentavam sacar valores maiores, encontravam obstáculos. Entre eles, exigências de novos pagamentos.
A ThinkTV usava outra isca. Prometia remuneração por tarefas simples: assistir a vídeos, avaliar conteúdos, curtir páginas. Para participar, era preciso se cadastrar e fazer um depósito inicial via Pix.
Depois, o usuário era incentivado a transferir novos valores para "liberar" os ganhos acumulados. Os valores acabavam bloqueados.
Para onde ia o dinheiro
A análise financeira do Deic identificou R$ 38,5 milhões em transações monitoradas. Dessas, R$ 14,05 milhões tiveram o fluxo rastreado.
Os depósitos dos usuários iam para contas de concentração — as chamadas "contas-bolsão". De lá, o dinheiro era redistribuído por contas intermediárias, usadas para transferências entre instituições e pagamentos a terceiros.
O objetivo declarado dessa estrutura é um só: dificultar a identificação da origem e do destino dos recursos.
A Justiça autorizou medidas de bloqueio envolvendo seis pessoas físicas e cinco pessoas jurídicas.
Por que esse caso não é sobre aposta
É importante separar. A FortuneSlots usava a estética de cassino, mas o produto não era jogo: era captação de depósito com promessa falsa de saque.
A ThinkTV nem isso. Era um esquema de "tarefas remuneradas", modelo que já derrubou aplicativos no mundo inteiro e que no Brasil costuma aparecer com nomes diferentes a cada seis meses.
O que une os dois é o desenho financeiro: depósito por Pix, saque bloqueado, exigência de novo pagamento, e uma estrutura de contas para apagar o caminho do dinheiro.
Como reconhecer antes de depositar
Três sinais, e todos aparecem antes do primeiro depósito.
Promessa de ganho garantido por tarefa. Nenhuma empresa séria paga por curtir página. Isso não existe. Se existe, é isca.
Saques condicionados a novo depósito. Isso é a definição jurídica de estelionato, não de regra de plataforma.
Bônus que só sai depois de muitas apostas. Aqui o terreno fica cinzento, porque casas reguladas também usavam rollover. A diferença é que casa regulada tinha CNPJ, regulador e obrigação de pagar. Plataforma de tarefa não tem nada disso.
O que fazer se você caiu
Registre boletim de ocorrência, guarde todos os prints (tela de saldo, comprovantes de Pix, conversas com o atendimento) e procure o Procon do seu estado.
E não deposite mais nada para "liberar o saque". Esse é o passo que transforma uma perda pequena numa perda grande. A plataforma nunca vai liberar — o pedido de novo depósito é o produto, não o obstáculo.
O que a operação ainda vai encontrar
O Deic continua analisando as contas-bolsão e as contas intermediárias. Com R$ 14,05 milhões rastreados de um universo de R$ 38,5 milhões, há bastante caminho pela frente.
E há a pergunta que ninguém respondeu: 10 milhões de pessoas passaram por essas plataformas. Quantas vão efetivamente buscar o prejuízo? Historicamente, uma fração mínima.
O que foi a Operação Disque 151?
Uma operação do Deic de São Paulo, deflagrada em 13 de outubro de 2026, contra duas plataformas digitais suspeitas de aplicar golpes: FortuneSlots e ThinkTV.
Quantas pessoas foram presas?
Três, além de seis mandados de busca e apreensão, duas quebras de sigilo bancário e duas de sigilo telemático.
Quanto dinheiro foi identificado?
R$ 38,5 milhões em transações bancárias, dos quais R$ 14,05 milhões tiveram o fluxo rastreado. O bloqueio patrimonial pode chegar a R$ 154 milhões.
Como o golpe funcionava?
As plataformas pediam depósito por Pix e prometiam saque. Quando o usuário tentava sacar valores maiores, era exigido um novo pagamento para "liberar" o saldo.
Quantas pessoas foram afetadas?
Mais de 10 milhões de apostadores e vítimas relacionadas às duas plataformas, segundo a investigação.
O que fazer se caí no golpe?
Registrar boletim de ocorrência, guardar prints e comprovantes e procurar o Procon. Não depositar mais nada para "liberar saque".